Galería Filomena Soares

Inês Botelho 'Presença Inflectida'

Inês Botelho 'Presença Inflectida'

exhibition view by inês botelho

Inês Botelho

Exhibition view, 2011

Price on Request

Thursday, September 22, 2011Saturday, November 12, 2011


Lisboa, Portugal

A Galeria Filomena Soares apresenta um conjunto de novas esculturas e desenhos de Inês Botelho (Lisboa, 1977), na exposição intitulada Presença Inflectida, patente até 12 de Novembro.

A obra de Inês Botelho reflecte uma preocupação alargada sobre a relação espaço-tempo, compreendida como um conceito universal e abstracto. Esta relação teve sempre uma presença relevante ao longo da história de arte recente: o cubismo fragmentava a representação de um objecto segundo diversos pontos de vista; o futurismo representava o movimento de um objecto num determinado período de tempo; o surrealismo percepcionava o espaço irreal e intemporal; o expressionismo-abstracto revelava uma noção de tempo e espaço relacionado com o limite performativo das acções; e o minimalismo reflectia o espaço das obras em confronto com o tempo da percepção dos espectadores. Contudo, a obra de Inês Botelho dificilmente se insere numa destas premissas. As suas esculturas e desenhos desenvolvem, criticamente, pressupostos inerentes à condição humana: gravidade, perspectiva, orientação e o tempo. A exposição Presença Inflectida questiona a alteração do paradigma da existência de um centro – ponto ou eixo – a partir do qual se estabelecem as posições relativas entre os diversos sujeitos e objectos. Se este centro pode ser entendido como o ponto “zero”, na medida que relaciona o espaço, o tempo e o movimento existente, a obra de Inês Botelho propõe a destabilização deste sistema que determina, entre outras coisas, a escala e a hierarquia presente.

O princípio físico da gravidade é entendido como uma força de atracção entre todas as partículas com massa no universo. No caso do planeta terra é a força intrínseca que nos impele ao chão. A obra de Inês Botelho joga constantemente com esta força, desconstruindo a noção de espaço (bi ou tridimensional). Na peça 3 momentos / 3 lugares (2011) não existe um referente espacial comum, as diversas partes parecem ser interdependentes mas, simultaneamente, existe um falso no apoio entre as três. A noção de tempo parece ser parodiada na existência de diversas sombras, como se existissem diversas fontes de luz. A peça monolítica Omnipresença. Presença. Ausência. (2011) apresenta uma possibilidade de fixar o movimento rotativo da mesma. Este movimento é, simultaneamente, a acumulação de todos os pontos do mesmo eixo da escultura que revela, deste modo, a ausência da forma original da peça. Esta possibilidade de ser uma coisa e outra reflecte uma preocupação central na obra da artista: o que não pode ser reflectido ou mostrado. A terceira peça escultórica – Acima de dois sóis (2011) – mostra-nos uma corrente numa posição com a gravidade invertida e com duas sombras provenientes de duas fontes de luz não visíveis. Nesta dupla presença sente-se a ausência de uma veracidade auxiliada pela sua posição impensável. São estas impossibilidades que possibilitam o acontecimento da obra da artista, ou seja, a obra pode ser uma coisa e/ou a outra coisa.

Nos desenhos apresentados pode-se vislumbrar uma análise crítica sobre o conceito movimento entendido como a relação entre espaço e tempo. No desenho O Céu visto da Terra e vice-versa (2011), estamos perante um duplo erro: o planeta terra está fixo enquanto as estrelas se movem e a terra movimenta-se enquanto as estrelas percorrem uma linha orbital. Esta duplicidade transforma o díptico numa inconsequente demonstração do conhecimento, onde nada parece correcto mas que dificilmente encontramos o erro. Os outros desenhos propõem um olhar em esforço para se percepcionar o movimento e rotação em jogo. A desconstrução de uma linha através do movimento sobre si mesma e em torno de um eixo transforma a sua percepção irreal construída através da sua impossibilidade. O eixo é criado através de pingos de tinta auxiliadas pela gravidade, mas não estão directamente relacionadas nem com o movimento que os objectos executam, nem com a posição do próprio desenho. O ritmo próprio dos cones ou dos chapéus-de-sol perpetua o olhar até o infinito.

A desconstrução do espaço-tempo coloca a experiência do sujeito no cerne da questão. Neste sentido, os dogmas e conhecimentos individuais e colectivos são destabilizados e transformados. Assim, a obra de Inês Botelho, ao concentrar-se na relação espaço-temporal entre objectos e sujeitos, torna-se uma negociação, por vezes difícil, entre aquilo que sabemos e aquilo que empiricamente experienciamos, ou seja, entre o indivíduo e o espaço físico envolvente.

INÊS BOTELHO nasceu em 1977, Lisboa, e vive e trabalha em Lisboa. Estudou Artes Plásticas - Pintura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (2001), no Centro de Arte e Comunicação Visual (2001) e realiza o Mestrado na City University of New York (2005). Realiza exposições individuais desde 2003 de onde se destacam: Resistência e Desistência (2008), Galeria Filomena Soares, Lisboa; Lugar Falhado (2008), Pavilhão Branco – Museu da Cidade, Lisboa; El Original Espacio Social (2007), Matadero Madrid, Getafe, Fuenlabrada, Madrid; Trade-off / Gravidade & Graça (2007), Casa dos Dias da Água, Lisboa; Inês Botelho (2005), ZDB, Lisboa. Das exposições colectivas em que participou destacam-se: Linhas Invisíveis (2010), Torres Vedras; Sítio das Artes (2007), CAM – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Metaphisics of Youth – Fuoriuso (2006), Pescara, Itália; Europart (2006), Viena e Salzburgo; EDP Novos Artistas (2003), Museu de Serralves, Porto; Veneer / Folheado (2003), Catalyst Arts, Belfast; Salon Européen de Jeunes Créateurs (2001), Salon de Montrouge, Paris-Montrouge; Inmemory (2001) e T9 (2000), ZDB, Lisboa. Recebe diversas bolsas de investigação artística, nomeadamente: Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, Fundação Ciência e Tecnologia e Centro Nacional de Cultura. A sua obra encontra-se presente em diversas colecções públicas e privadas, tais como: Fundação EDP; MAK Museu de Artes Aplicadas, Viena; Portugal Telecom; Colecção António Cachola; Fundação PLMJ; Pedro Cabrita Reis.